25.12.25

Desatinos ('in.timo' 17)







Nom temo a minha morte, nom

senom por deixar-vos sós

desejaria renascer mais adiante

simplesmente para observar-vos

de maiores liberados 

de mim

da omnipresença

da omnisciência

da impotência de mai


De nom falecer na tentativa

de continuar vivos

sem ser vítimas dos desatinos

deste mundo hostil

mesquinho

e tam sem sentido

como as guerras intestinas

entre os que premem o botom

e nunca recebem as bombas


Nom temo a própria morte, nom

—já digo—

salvo por deixar-vos sós

e à deriva sem o meu escudo protetor

inútil

perante as armas de destruiçom massiva

mas fundamental para sobreviver

neste mundo cada vez mais hostil

onde só o amor nos poderá redimir





 Eva Loureiro Vilarelhe




25.11.25

Dona e senhora ('Figa' 7 e 'Lira' 4)






Eu decido onde, e quando,

e como, e mais com quem,

som minha dona e senhora,

padroeira do meu ser.


Se contigo nada quero

nom dirás 

          —espero— 

                   rem!


Soberana do meu corpo,

rainha som para alguém,

atrativa para moitos:

sedutora com ninguém.


Se contigo nada quero

nom dirás 

          —espero— 

                   rem!


Eu direi-che do que gosto,

ti se gostares tamém,

de chegarmos a um acordo

todo vai correr moi bem.


Se contigo nada quero

nom dirás 

          —espero— 

                   rem!


Eu decido onde, e quando,

e como, e mais com quem,

som minha dona e senhora,

padroeira do meu ser.



 Eva Loureiro Vilarelhe




23.10.25

Eu sonhar, sonhar, sonhei… ('Lira' 3)






Homenageando a Rosalia de Castro




Eu sonhar, sonhar, sonhei,

a sorte nom era moita,

que nunca (delo me pesa)

fum meninha venturosa.

Sonhei como mal sabia

dando-lhe reviravoltas,

como fam os que pretendem

escapar da dolorosa.

Penalidades sofremos,

lástima de vida tola,

merecido tal castigo

polos pecados doutrora.

Aliás temos presentes

os nossos males de agora:

guerra, injustiça e traiçom,

a raça nunca melhora.

Mas aos poucos passeninho,

como quem nom quer a cousa,

fum sonhando esperançada

cumha existência nova.

Imaginei que seria

mais boniteira que a nossa,

bem mais alegre e riseira,

pacífica e primorosa,

desenhada por crianças

de almas puras e gozosas.

Salvaria-se o planeta

da nossa fétida impronta,

renascendo a primavera

e as estaçons tam fermosas,

sepultadas baixo o jugo

da lacra mais pavorosa.

Por fim cobiça esquecida,

convivência amorosa,

mais solidariedade,

e paz por riba de toda

primazia parcial: 

harmonia milagrosa! 

O sonho é realidade,

todo vira cor de rosa:

remoçada a humanidade,

o amor do mundo me afoga. 

Eu sonhar, sonhar, sonhei,

a sorte nom era moita,

mas que fazer, desgraçada,

se nom nacim venturosa!



 Eva Loureiro Vilarelhe





25.9.25

O silêncio mata







A colonizaçom é intrinsecamente genocida

lembremos tantos povos massacrados

terras despojadas de tantas vidas

despejadas por poderes taimados


O silêncio mata

e velaí está Gaza


Nunca esqueçamos: muçulmanos — negros

aborígenes australianos — nenos

ciganos — homossexuais — mulheres

sérvios — ucranianos — berberes 


O silêncio mata

e velaí está Gaza


E os governos assassinando à manda: 

Guatemala — Burundi — Darfur — Bósnia 

Colómbia — Bangladesh — Etiópia

Camboja — Timor-Leste - Ruanda


O silêncio mata

e velaí está Gaza


Matarom a maioria dos índios 

brasileiros — tibetanos — taínos 

americanos — uigures — arménios

ruaingas — ahmaras — curdos — assírios


O silêncio mata

e velaí está Gaza


Os judeus sofrerom o seu Holocausto 

—e os soviéticos e poloneses 

tamém romanis e deficientes—

mas negar a Nakba é —de facto— infausto


O silêncio mata

e velaí está Gaza


Os erros da história perpetrados

condenam sempre aos febles deserdados

alcemos a voz por todas as mortes

que unidos sempre seremos mais fortes


O teu silêncio mata

e serás cúmplice em Gaza



 Eva Loureiro Vilarelhe