26.4.26

Borbota ('Fogos de artifício' 9)






Agroma à minha boca,

a tua mao abrange

boa parte da coxa,

e engasga-se-me a frase.


Na entreperna borbota,

veludo cobre o glande,

a voz pom-se-me rouca:

já és sangue do meu sangue.


Sujar-te nom te importa:

—Sente-se mais suave,

dis e armas a liorta.

Concedo e viras grande.


Eu ignoro que estou porca

mentres lambes e lambes,

lembro os gregos e a força:

os antigos bem sabem.


Vás-te dentro e reborda:

o mar fai-se meirande.

Alheios ao de fora,

fico na mesma exangue.



Eva Loureiro Vilarelhe




26.3.26

Mulheres em pé de guerra ('Figa' 8)





Fronte aos estados governados

por octogenários idos,

fago um chamado ao matriarcado:

parar-lhes os pés é preciso!


Combater a virilidade

com sabedoria ancestral,

que nom sua senilidade,

pois de novos eram igual…


Solevantados no poder

arvorando sempre a pátria,

prevalece o seu parecer:

defendamos logo a mátria!


As mulheres em pé de guerra,

punhos em alto pola paz,

reivindicando com apertas

diálogos sem antifaz…


Palavras que nom leve o vento,

promessas que havemos cumprir,

feitos que perdurem no tempo:

e um mundo mais justo e feliz!




 Eva Loureiro Vilarelhe





26.2.26

Coraçom cego ('Atlântidas' 7)





Os meus cabelos,

fios de terra mesta,

nesses dias nublados.


Ora os meus olhos, 

poços de auga cinzenta,

nesses dias molhados.


E os meus lábios,

corredoiras de gesta,

nesses dias mais claros.


—Nom és a mesma sempre…

—O mar nom é o mar sempre?


Verde embruxado,

nesses dias nublados.


Gris imantado,

nesses dias molhados.


Azul meigalho,

nesses dias mais claros.


Daquela acaba sendo

o meu coraçom, logo,

—mesmo cego— sábio.




 Eva Loureiro Vilarelhe




31.1.26

Chover ou nom chover ('Poesia incompleta para dissidentes' 5)









Lá fora a chover

cá dentro a chorar

do céu manam balas

corpos caem exangues

remeda os rios de sangue

meu ventre nas barricadas


Chover ou nom chover

a questom nunca será essa

os tempos andam revoltos 

nem presta numerar mortos 

a terra há reverdecer

o sangue acender pavesas 


Chover ou nom chover

chorar sempre a chorar

afinal pouco importa

de onde vier o vento 

chover ou nom lá fora

chorar na mesma cá dentro





             Eva Loureiro Vilarelhe