27.8.26

Mudou o clima ('Atlântidas' 8)







—Remembering 

The Beavertail Lighthouse 

The Claiborne Pell Newport Bridge, 

Rhode Island—




Este agosto sabe-me a abafo

a terra quente cheira o mar

morno

onde vai o meu Atlântico

gélido?

Nestas noites de tanto afogo

mestas do suor onde aboio

boto em falta aquela friage

e sonho

sonhos maus —nightmares, cauchemars—

por vezes sonhos saborosos

a mar

amo a lembrança aquela lá

do outro lado oceânico

eu coas pontas dos pés a remolho

meu lar

refletido em augas ianques

por acaso um quatro de julho

fermoso

e soalheiro ao pé do Atlântico

e era como estar deste lado

o mesmo mar arrepiando

a pel

pesadelos tenho co cálido

que o sinto um quarto de século

despois

—quase— como quase mudou o clima 

de vez! 




Eva Loureiro Vilarelhe




31.7.26

Eu voto! (‘Figa’ 9)







Mulher casada 

nunca apresada

logo: vota!

—Renunciar será a nossa derrota—


As tarefas do fogar

a criança familiar

ainda hai tanto a conquistar

logo:vota!

—Renunciar será a nossa derrota—


O coidado dos maiores

os salários piores

ainda hai moitos pormenores

logo: vota!

—Renunciar será a nossa derrota—


A ameaça do fascismo

a torpeza do machismo

ainda haverá um cataclismo

logo: vota!

—Renunciar será a nossa derrota—


Nunca apresada

mesmo casada:

eu voto!

—A loitar pola nossa vitória—




Eva Loureiro Vilarelhe




28.6.26

Amar em liberdade






Quero colher-te da mao

com dignidade

ou falar do nosso, amor

em paridade


Quero sentir ao gozar

impunidade

ou de nós sentir falar

sem ruindade


Quero conformar um lar

com equidade

sem notar ao viajar

desigualdade


Quero toda erradicar

a ambiguidade

e por fim poder-te amar

em liberdade



Eva Loureiro Vilarelhe





17.5.26

Lambetada ('Poesia incompleta para dissidentes' 6)









A língua serve para comer

a língua serve para lamber

a língua serve para beijar

a língua serve para falar


Língua que nom come

morre esfameada


Língua que nom lambe

chora a lambetada


Língua que nom beija

acaba amuada


Língua que nom se fala

fica silenciada


Comamos e acabe o amuo! Beijemos 

e morra a fame! Falemos

que a nossa fala é-nos a lambetada!



Eva Loureiro Vilarelhe






26.4.26

Borbota ('Fogos de artifício' 9)






Agroma à minha boca,

a tua mao abrange

boa parte da coxa,

e engasga-se-me a frase.


Na entreperna borbota,

veludo cobre o glande,

a voz pom-se-me rouca:

já és sangue do meu sangue.


Sujar-te nom te importa:

—Sente-se mais suave,

dis e armas a liorta.

Concedo e viras grande.


Eu ignoro que estou porca

mentres lambes e lambes,

lembro os gregos e a força:

os antigos bem sabem.


Vás-te dentro e reborda:

o mar fai-se meirande.

Alheios ao de fora,

fico na mesma exangue.



Eva Loureiro Vilarelhe




26.3.26

Mulheres em pé de guerra ('Figa' 8)





Fronte aos estados governados

por octogenários idos,

fago um chamado ao matriarcado:

parar-lhes os pés é preciso!


Combater a virilidade

com sabedoria ancestral,

que nom sua senilidade,

pois de novos eram igual…


Solevantados no poder

arvorando sempre a pátria,

prevalece o seu parecer:

defendamos logo a mátria!


As mulheres em pé de guerra,

punhos em alto pola paz,

reivindicando com apertas

diálogos sem antifaz…


Palavras que nom leve o vento,

promessas que havemos cumprir,

feitos que perdurem no tempo:

e um mundo mais justo e feliz!




 Eva Loureiro Vilarelhe