26.2.26

Coraçom cego ('Atlântidas' 7)





Os meus cabelos,

fios de terra mesta,

nesses dias nublados.


Ora os meus olhos, 

poços de auga cinzenta,

nesses dias molhados.


E os meus lábios,

corredoiras de gesta,

nesses dias mais claros.


—Nom és a mesma sempre…

—O mar nom é o mar sempre?


Verde embruxado,

nesses dias nublados.


Gris imantado,

nesses dias molhados.


Azul meigalho,

nesses dias mais claros.


Daquela acaba sendo

o meu coraçom, logo,

—mesmo cego— sábio.




 Eva Loureiro Vilarelhe




31.1.26

Chover ou nom chover ('Poesia incompleta para dissidentes' 5)









Lá fora a chover

cá dentro a chorar

do céu manam balas

corpos caem exangues

remeda os rios de sangue

meu ventre nas barricadas


Chover ou nom chover

a questom nunca será essa

os tempos andam revoltos 

nem presta numerar mortos 

a terra há reverdecer

o sangue acender pavesas 


Chover ou nom chover

chorar sempre a chorar

afinal pouco importa

de onde vier o vento 

chover ou nom lá fora

chorar na mesma cá dentro





             Eva Loureiro Vilarelhe